A inadequação linguística de Carolina Maria de Jesus

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A inadequação linguística de Carolina Maria de Jesus por Mind Map: A inadequação linguística de Carolina Maria de Jesus

1. Uma professora famosa de Literaturas de uma universidade famosa brasileira resolve criticar a nova edição da escritora Carolina Maria de Jesus pela Companhia das Letras, uma edição, segundo me dizem, com participação de Conceição Evaristo e pela própria filha de Carolina.

1.1. O post dela é um clássico de como a branquitude vê língua. Há décadas a visão de democratização da norma culta é uma religião entre nós. Para isso, se substituiu aos poucos o que se chamava de “erro” para “adequação”, como se lé e cré não fossem a mesma coisa.

1.1.1. A despeito de toda retórica, as normas também estão em disputa pelo próprio povo, pelas pessoas, pelos usos. A visão linguística dos africanos no Brasil durante muito tempo se internalizou no tal português brasileiro e é um espaço de disputa dentro dele. Não só porque precisamos chamar essas práticas de pretuguês, mas porque precisamos repensar como uma pessoa supostamente “sem norma” fala e continua a falar, e mesmo assim produz conteúdo e conhecimento, apesar da “norma”. Isso nos faz enxergar que não há aquela norma, senão como abstração da nossa visão racista de norma, que conclui por uma internalização capenga de normas, como se somente os sujeitos estivessem submetidos a elas e não elas também aos sujeitos. É essa a decisão política, capitaneada e louvada no meio acadêmico brasileiro quando lideradas por intelectuais negros.

1.2. Nessa direção, ela coloca Carolina nas margens apenas por sua língua. Para ela, o que justifica a posição de subalternidade dos escritores negros é porque eles não foram incorporados à cultura da escrita e do português padrão. Nada se difere de Florestan Fernandes, e sua busca pela integração, ou do próprio movimento br.an.ku crítico brasileiro que, em sua história, nunca retornou às lutas antiescravas dos próprios africanos e repetem até hoje um antirracismo fajuto e superficial, uma agenda da boca pra fora, a partir de suas posições privilegiadas de branquitude.

1.2.1. Engraçado é que ninguém se manifestou contra a edição desonesta de Carolina feita por seus editores brancos até aqui. Bastou estar na “norma” (da branquitude) e Carolina veio pra sala do exotismo e da piedade da crítica literária brasileira, que é normativista e ultrapassada.