Teorias dos Movimentos Sociais

AS TEORIAS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS: UM BALANÇO DO DEBATE - Angela Alonso

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Teorias dos Movimentos Sociais por Mind Map: Teorias dos Movimentos Sociais

1. Três Grandes Teorias (anos 1970)

1.1. Teoria dos Novos Movimentos Sociais (TNMS)

1.1.1. Alain Touraine, Jürgen Habermas, Alberto Melucci

1.1.1.1. HABERMAS: Os novos movimentos sociais são formas de resistência à colonização do mundo da vida, reações à padronização e à racionalização das interações sociais e em favor da manutenção ou expansão de estruturas comunicativas, demandando qualidade de vida, equidade, realização pessoal, participação, direitos humanos (Habermas, 1981, p. 33).

1.1.1.2. MELUCCI: se dedicou a produzir uma teoria da identidade coletiva. Como um ator coletivo é formado ou quais relações e processos levam os indivíduos a se envolverem coletivamente numa ação política?

1.1.1.2.1. Como Tilly – e à diferença de Touraine e Habermas –,Melucci define os movimentos sociais não como um agente, mas como uma forma de ação coletiva

1.1.1.3. TOURAINE: único dentre esses autores a ter refletido diretamente sobre a América Latina

1.1.1.3.1. Touraine reconhece que as demandas econômicas seguem relevantes na América Latina; no entanto, para englobar seus movimentos dentre os “novos”, argumenta que haveria aqui uma combinação sui generis de demandas materiais e pós-materiais (Touraine, 1989b).

1.1.2. Interpretação efetivamente cultural para os MS

1.1.2.1. Ao longo do século XX, uma mudança macroestrutural teria alterado a natureza do capitalismo, cujo centro teria deixado de ser a produção industrial e o trabalho.

1.1.2.1.1. A dominação teria se tornado eminentemente cultural, feita por meio do controle da informação por uma tecnocracia.

1.1.2.2. Os movimentos sociais aparecem, então, como o novo ator coletivo, portador de um projeto cultural. Em vez de demandar democratização política ao Estado, demandariam uma democratização social, a ser construída não no plano das leis, mas dos costumes; uma mudança cultural de longa duração gerida e sediada no âmbito da sociedade civil.

1.1.2.2.1. Os movimentos de classe dariam lugar, assim, a novos movimentos expressivos, simbólicos, identitários, caso do feminismo, do pacifismo, do Ambientalismo, do movimento estudantil.

1.1.3. Foco no processo de construção de identidade coletiva

1.1.3.1. Inclui três dimensões da ação coletiva. Identidade coletiva produzida a partir de:

1.1.3.1.1. Definição de um “framework cognitivo” acerca dos fins, meios e campo da ação

1.1.3.1.2. Ativação prática de relações entre atores (interação, comunicação, influência, negociação, tomada de decisão)

1.1.3.1.3. Investimento emocional que os leva a se reconhecerem como membros de um grupo

1.1.4. acentuou aspectos simbólicos e cognitivos – e mesmo emoções coletivas –, incluindo-os na própria definição de movimentos sociais. Em contrapartida, deu menor relevo ao ambiente político em que a mobilização transcorre e aos interesses e recursos materiais que ela envolve

1.1.4.1. Críticas à TNMS

1.1.4.1.1. atacam a distinção entre “novos” e “velhos”movimentos, argumentando que, em qualquer tempo, movimentos sociais combinam demandas materiais e simbólicas.

1.1.4.1.2. denunciaram a visão idealizada do objeto, que terialevado a TNMS a buscar nos movimentos sociais um novo sujeito revolucionário, com a luta transposta do plano da economia para o da cultura;

1.1.4.1.3. A TNMS foi acusada ainda de se restringir ao plano societário, negligenciando a relação dos movimentos sociais com a dinâmica político-institucional.

1.1.4.1.4. A TNMS teria também demons- tração empírica limitada ou insuficiente e explicaria mal casos não europeus, como os latino-americanos, em que as mudanças estruturais de que falam não aconteceram ou seguiram outros padrões;

1.2. Teoria do Processo Político (TPP)

1.2.1. Adiciona um elemento cultural à explicação. A coordenação depende de solidariedade.

1.2.1.1. Um movimento social é definido, então, como uma “interação contenciosa”, que “envolve demandas mútuas entre desafiantes e detentores do poder”, em nome de uma população sob litígio (Tilly, 1993).

1.2.1.1.1. Em vez de definir a equação como movimentos sociais versus Estado, a TPP opõe “detentores do poder” (os membros da polity), que têm controle ou acesso ao governo que rege uma população (incluídos os meios de repressão), e “desafiantes”, que visam obter influência sobre o governo e acesso aos recursos controlados pela polity

1.2.1.2. Tilly e Tarrow

1.3. Teoria de Mobilização de Recursos (TMR)

1.3.1. focalizou a dimensão micro-organizacional e estratégica da ação coletiva e praticamente limou o simbolismo na explicação.

1.3.1.1. Críticas à TMR

1.3.1.1.1. À cultura restou lugar residual. Pressupõe um ator individual, sem levar em conta o problema da formação de uma identidade coletiva (Piven e Cloward, 1995)

1.3.1.1.2. A teoria prima por uma análise conjuntural, sem vincular os movimentos a macroestruturas ou situá-los em processos de mais longo alcance.

1.3.1.2. McCarthy e Zald (1977)

1.3.1.3. A ação coletiva só se viabilizaria na presença de recursos materiais (financeiros e infraestrutura) e humanos (ativistas e apoiadores) e de organização, isto é, da coordenação entre indivíduos doutro modo avulsos.

2. Debates sobre limites das três teorias

2.1. Dois autores, Craig Calhoun e Jean Cohen, são emblemáticos

2.1.1. Jean Cohen (1985), acoplou TMR e TPP num único pacote, o “paradigma da mobilização de recursos”

2.1.2. Calhoun (1995) escreveu artigo capciosamente intitulado “Novos movimentos sociais do começo do século XIX”. Críticas às TNMS

2.2. Novas definições do fenômeno ao longo dos anos 1990.

2.2.1. A partir dos anos 1990, as teorias dos movimentos sociais investiram, em sínteses conceituais e abordagens integradas, ambicionando conjugar o estudo das práticas de mobilização e dos códigos culturais que as orientam e focalizando experiências peculiares de produção de sentidos e de identidades coletivas.

2.2.2. Mario Diani

2.2.2.1. define movimentos sociais como: “[...] redes de interações informais entre uma pluralidade de indivíduos, grupos e/ou organizações, engajadas em conflitos políticos ou culturais, com base em identidades coletivas compartilhadas”

3. A virada para o século XXI trouxe problemas novos.

3.1. mudança de escala do ativismo, de nacional a global

3.1.1. O Estado nacional deixa, assim, de ser o antagonista prioritário, desafiando todas as teorias dos movimentos sociais, que definiam o fenômeno em escala nacional.

3.2. o ativismo se profissionalizou

3.2.1. movimentos sociais se burocratizaram, se converteram em partido, se empresariaram ou assumiram a prestação de serviços estatais

3.3. A associação entre novos movimentos e pautas “pós-materiais”também se esgarçou com a leva de mobilizações étnicas,religiosas, comunitárias e conservadoras.

3.4. o 11 de setembro fechou a era do protesto pacífico, abrindo a temporada das mobilizações policêntricas e violentas, com o terrorismo se candidatando à forma rotineira de mobilização coletiva do novo século.

3.5. Mudanças nas teorias

3.5.1. a TNMS foi se convertendo paulatina- mente de teoria dos movimentos sociais em teoria da sociedade civil global

3.5.2. Já a TPP refinou-se para abranger o terrorismo – facilmente, pois a violência já estava no coração da teoria –, a burocratização e a globalização do ativismo e dar mais peso à cultura.

3.5.2.1. A teoria se torna eminentemente comparativa, e os movimentos sociais viram apenas uma das formas de ação investigadas.

3.5.2.1.1. conflitos políticos em geral (a contentious politics)

3.5.3. atualizou a celeuma antiga.

3.5.3.1. Os teóricos da sociedade civil global acusam a contentious politics de simplesmente transpor velhas categorias para nova escala, mantendo o sobrepeso das facetas materiais e organizacionais do ativismo e a subestimação da cultura. E seus mecanismos explicativos seriam tão numerosos, e com tantas combinações possíveis, que a explicação redundaria particular.

3.5.3.2. De seu lado, a contentious politics segue criticando a teoria da sociedade civil por subdimensionar interesses e organização e por recorrer a um conceito – o de socieda- de civil global – vago e que superestima a estabilidade das articulações entre ativistas (Tarrow, 2005)

3.6. América Latina

3.6.1. a teoria da sociedade civil herdou a hegemonia da TNMS na América Latina, orientando estudos acerca da autonomia dos atores da sociedade civil em relação às instituições políticas “tradicionais” (Foweraker, 2001) e de inovações políticas na participação deles em arenas decisórias e em experiências de democracia deliberativa (Costa, 1994; Avritzer, 1994; Alvarez, Escobar e Dagnino, 2000).

3.6.1.1. os estudos especificamente sobre movimentos sociais caíram significativamente na América Latina nesta virada de século.

3.7. Cultura e globalização são candidatas a permanecerem como as duas tópicas de maior relevo nas discussões sobre movimentos sociais nos próximos anos – seguidas de perto pelo tema da violência.

3.7.1. Novas definições de cultura em uso no debate

3.7.1.1. perspectiva cognitiva.

3.7.1.1.1. Snow e Benford (1986, 1992, 2000) redefiniram o conceito de frame de Erving Goffman

3.7.1.2. noção performativa, privilegiando as práticas e a agency.

3.7.1.2.1. A cultura é vista como terreno de litígio, perpassado por relações de poder.

3.7.1.3. privilegia a retórica dos ativistas e suas narrativas.

3.7.1.3.1. Essa pegada pós-estruturalista che- gou às teorias dos movimentos sociais em versão mitigada, como análise semântica de textos de militantes.

3.7.1.4. neodurkheimiano,

3.7.1.4.1. noção da cultura como moralidade e rituais de ação coletiva.

3.7.1.5. os afetos voltam à explicação das mobilizações coletivas.

3.7.2. globalização do ativismo.

3.7.2.1. Seguem ainda indemonstradas as fronteiras entre movimentos nacionais e globais.

3.7.2.1.1. Com tantas definições disponíveis e raríssimos estudos empíricos de escala efetivamente planetária, as teorias dos movimentos sociais estão também longe do consenso quando tratam de mobilizações “globais”.