1. TRASNTORNO “PICA”: O transtorno denominado “pica” (DSM-5 e CID-11), já descrito por Hipócrates, 400 anos antes de Cristo (que a descreveu como “ânsia por comer terra devido a uma alteração sanguínea”), caracteriza-se pela ingestão persistente e regular de substâncias não alimentares, muitas vezes bizarras, como geofagia (comer argila, terra) ou comer reboco, giz, gesso, plástico, metal, papel ou, ainda, ingredientes crus dos alimentos (como grande quantidade de sal ou farinha), durante o período mínimo de um mês. Danos causados: O transtorno causa danos à saúde, prejuízo do funcionamento social ou risco significativo devido à frequência, à quantidade ou à natureza das substâncias ou objetos ingeridos. A relação entre pica e déficits de micronutrientes tem sido postulada (mas não confirmada), pois há com frequência anemia e níveis baixos de hemoglobina, do hematócrito e de zinco, entretanto os sentidos causais não puderam ser esclarecidos.
1.1. TRANSTORNO DE RUMINAÇÃO: No transtorno de ruminação (DSM-5 e CID-11), há o comportamento repetido e intencional de regurgitar (do estômago para a boca novamente) o alimento ingerido. O alimento regurgitado pode ser remastigado e reengolido ou pode simplesmente ser cuspido, ejetado para fora da boca (não como vômito). Para esse diagnóstico, o comportamento deve ocorrer com frequência, em geral várias vezes por semana, durante pelo menos um mês. Esse comportamento não é explicado por causas físicas gastrintestinais, como refluxo gastresofágico ou estenose do piloro, e não ocorre exclusivamente durante o curso de outro transtorno alimentar (anorexia, BN, compulsão ou evitação alimentar). Em crianças, a idade mínima para o diagnóstico do transtorno é de 2 anos.
1.1.1. O comportamento alimentar pode ser dividido nas seguintes dimensões: DIMENSÃO FISIOLÓGICO-NUTRITIVA: Relaciona-se a aspectos metabólicos, endócrinos, neuroquímicos e neuronais, que regulam os mecanismos de fome e saciedade, a demanda e a satisfação das necessidades nutricionais. DIMENSÃO AFETIVA E RELACIONAL: A fome e a alimentação vinculam-se à satisfação e ao prazer. O prazer alimentar oral tem, segundo a psicanálise, uma conotação nitidamente libidinal. No desenvolvimento da criança, a zona bucal e a amamentação são os mediadores da primeira relação interpessoal fundamental: a relação mãe-bebê. DIMENSÃO SOCIAL E CULTURAL: Ao longo da história da humanidade, todas as sociedades e culturas estabelecem regras, tabus e rituais em relação aos alimentos e aos comportamentos alimentares.
2. Obesidade Embora a obesidade não seja classificada como um transtorno do comportamento alimentar, será abordada aqui devido a sua frequência e grande importância para a saúde física e mental. Ela é uma condição complexa, determinada por fatores genéticos, desenvolvimento psicológico, familiares e culturais. A pandemia da obesidade, que cresce a cada ano em muitos países, tem tido marcante impacto na vida. Um dos pontos fundamentais da obesidade é a disfunção dos mecanismos de saciedade do indivíduo. Além disso, a condição tem grande importância para a saúde pública, pois associa-se a taxas elevadas de: • Morbidade- Aumento na prevalência de diabetes melito tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono, problemas ortopédicos e dermatológicos. Em mulheres ocorrem irregularidades menstruais, hiperandrogenismo e infertilidade. Em homens ocorre diminuição dos níveis de testosterona e disfunção erétil. • Mortalidade. Ocorre por distúrbios cardiovasculares, respiratórios e endócrinos, assim como pelo risco aumentado de tumores de mama, útero, ovário, próstata, intestino grosso e vias biliares. • Piora na qualidade de vida. A obesidade impacta seriamente na qualidade de vida das pessoas. Tem sido demonstrado que o tratamento exitoso da obesidade mórbida (com cirurgia bariátrica ou tratamento clínico) tem importante efeito positivo sobre a qualidade de vida.
3. ANOREXIA NERVOSA (DSM-5 E CID-11) A anorexia nervosa caracteriza-se pela presença de peso muito baixo em relação à altura devido à restrição de ingesta calórica em relação às necessidades, o que leva à perda de peso autoinduzida. Tal perda se dá, portanto, por abstenção de alimentos que engordam ou por comportamentos como vômitos e/ou purgação autoinduzidos, exercício excessivo e uso de anorexígenos e/ou laxantes e diuréticos (Fichter, 2005; Wilson; Shafran, 2005) Quando a perda de peso marcante ocorre, surgem alterações endócrinas como amenorreia hipotalâmica (suspensão da menstruação), hipercortisolemia relativa, resistência nutricialmente adquirida ao hormônio do crescimento, baixo nível de fator 1 de crescimento insulina-like, queda da leptina, da insulina, da amilina e outras incretinas, assim como aumento da grelina (resistência à grelina), do PYY e da adiponectina. Há também queda importante da densidade óssea, e podem ocorrer fraturas e mudanças na microarquitetura dos ossos (Misra; Klibanski, 2014). Deve-se diferenciar a anorexia nervosa do transtorno alimentar restritivo/evitativo (CID-11 e DSM-5). Este se caracteriza por esquiva ou restrição graves na área da alimentação, “produzidas”, em certo sentido, pela aversão a alimentos pela pessoa acometida (não por falta de alimentos). Geralmente o padrão começa a desenvolver-se na fase de criança lactente ou na primeira infância (0-3 anos) e pode persistir ao longo da infância, da adolescência e do período adulto. O comportamento alimentar restritivo resulta em aporte inadequado e insuficiente de quantidade e variedade de alimentos para o gasto energético e as necessidades nutricionais.
3.1. BULIMIA NERVOSA (DSM-5 E CID-11) A bulimia nervosa (BN) caracteriza-se por preocupação persistente com o comer e desejo irresistível de se alimentar, com o paciente sucumbindo a repetidos episódios de hiperfagia, (“ataques” à geladeira, à despensa, com sensação de perda do controle no comer). A bulimia nervosa é uma preocupação em excesso do seu peso, a pessoa acaba fazendo coisas extremas, como por exemplo se alimentar e logo em seguida começar a induzir vômitos com o intuito de diminuir o peso decorrente da ingestão de alimentos. Os indivíduos com BN estão geralmente dentro da faixa de peso normal, embora alguns possam apresentar-se levemente acima ou abaixo dela (mas na obesidade mórbida ela também está presente). O comportamento purgativo pode produzir alterações hidreletrolíticas (hipocalemia, hiponatremia e hipocloremia). Quando a pessoa se força a ter esses vômitos para emagrecer ela pode acabar perdendo ácido gástrico causando alcalose metabólica, e também o vômito frequente pode causar perda do esmalte dentário levando a pessoa até a perder os dentes, e também a frequente indução de diarreia devido os laxantes pode causar acidose metabólica. Como a Bulimia Nervosa é um comportamento socialmente condenável, as pacientes costumam negar os sintomas quando inquiridas por profissionais de saúde. O DSM-5 indica quatro níveis de gravidade da BN: 1-Leve, com média de 1 a 3 episódios de bulimia e comportamentos compensatórios inapropriados (vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, diuréticos, entre outros) por semana; 2-Moderada, com 4 a 7 episódios semanais; 3-Grave, com 8 a 13 episódios por semana; 4-Extrema, com mais de 14 episódios semanais.
3.1.1. O transtorno de compulsão alimentar (DSM-5 e CID-11) se caracteriza por episódios frequentes e recorrentes de comer compulsivo, pelo menos uma vez por semana, por vários meses. O indivíduo tem a sensação subjetiva de perda do controle em comer, não consegue, na compulsão, parar de comer. Sente muito sofrimento com isso, acompanhado de sentimento de culpa e repulsa de seus comportamentos. Diferente da bulimia nervosa, não tem comportamentos purgativos após a compulsão alimentar, a pessoa não produz vômito autoinduzido, não fica se forçando a ter vômitos e nem usa laxantes para ter diarreia, ela apenas apresenta compulsão alimentar.