Perejivânie: uma aproximação ao estado da arte das pesquisas
por Fernanda Meneghel
1. Tendo em vista a variedade de significados e contextos de uso da palavra perejivânie (vivência), além de questões de tradução, e o fato de vivência (perejivânie) enquanto conceito articulado à teoria histórico-cultural ser uma construção não acabada e pouco desenvolvida, devido à morte precoce do autor, é compreensível que falte clareza quanto à definição e utilização do termo nas produções que o compreendem. Essa abertura e imprecisão apresenta tanto potencialidades quanto desafios e perigos. Clarà (2016) enfatiza as “muitas vidas” da palavra perejivânie e como ela fomenta diferentes conceitos e perspectivas, sendo utilizada para distintos fins e relevante em diferentes interesses de pesquisa. Da mesma forma, como observado por Smagorinsky apud Veresov e Fleer (2016), há também o risco de a vivência revelar-se mais uma “noção hipnótica”, superficial, do que um conceito com real significado.
2. É a partir dos anos 1930, em seus últimos anos de vida, que Vigotski apresentará perejivânie (vivência) como um conceito articulado à teoria históricocultural, ainda que este trabalho não tenha sido concluído ou aprofundado, tendo em vista a morte do autor em 1934. Roth e Jornet (2016) observam que esse movimento se relaciona ao desafio, colocado por Vigotski, de lidar com a questão psicofísica (mente e corpo) e com a superação da separação entre cognição e afeto, pensamento e linguagem. Vivência (perejivânie) é introduzida como conceito nas aulas de Vigotski sobre os fundamentos da pedologia.
2.1. Nesse contexto, Vigotski (1935/2018) compreende vivência enquanto um prisma que refrata a influência do meio sobre o desenvolvimento da criança. A vivência é compreendida enquanto unidade que reúne características pessoais e do ambiente. Nas palavras do autor:
2.1.1. Vivência é uma unidade na qual se representa, de modo indivisível, por um lado, o meio, o que se vivencia – a vivência está sempre relacionada a algo que está fora da pessoa –, e, por outro lado, como eu vivencio isso. (VIGOTSKI, 2018, p. 78)
3. Veresov e Fleer (2016) trazem uma definição feita por Vigotski, de 1931, conforme consta no Psychological Dictionary (produzido em parceria com Varshava), na qual o autor declara que todo processo psicológico é perejivânie. Essa definição genérica, no entanto, não se situa no contexto de articulação da teoria histórico-cultural, referindo-se ao significado tradicional do termo à época para a psicologia.
3.1. No livro Psicologia da arte, do início de seu percurso acadêmico, Vigotski traz outra compreensão de perejivânie (perejivânie estética), enfocando uma dimensão fenomenológica que se debruça sobre o processo de vivência (como) e o seu conteúdo (o quê) (VERESOV; FLEER, 2016).
3.1.1. Da mesma forma, Toassa e Souza (2010) reiteram essa compreensão, neste primeiro Vigotski, de uma vivência (perejivânie) de caráter fenomenológico, marcada por sentimentos e sensações que deverão ser compreendidas depois de vivenciadas, e que abarcam relações mútuas sujeito-mundo.