1. . O labor, o trabalho, a ação e, na verdade, até mesmo o pensamento como o conhecemos deixariam de ter sentido em tal eventualidade. Não obstante, até mesmo esses hipotéticos viajores terrenos ainda seriam humanos; mas a única afirmativa que poderíamos fazer quanto à sua «natureza» é que são ainda seres condicionados, embora sua condição seja agora, em grande parte, produzida por eles mesmos.
2. A relação ser e dever-ser em Platão e as formas de alma e de governo na República
3. A Vita Activa e a Condição Humana Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais: labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na Terra.
4. PRÓLOGO Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão do homem, foi lançado ao universo, onde durante algumas semanas girou em torno da Terra segundo as mesmas leis de gravitação que governam o movimento dos corpos celestes — o Sol, a Lua e as estrelas. É verdade que o satélite artificial não era nem lua nem estrela; não era um corpo celeste que pudesse prosseguir em sua órbita circular por um período de tempo que para nós, mortais limitados ao tempo da Terra, durasse uma eternidade.
4.1. Ainda assim, pôde permanecer nos céus durante algum tempo; e lá ficou, movendo-se no convívio dos astros como se estes o houvessem provisoriamente admitido em sua sublime companhia.
5. HANA ARENDT
6. Há já algum tempo este tipo de sentimento vem-se tornando comum; e mostra que, em toda parte, os homens não tardam a adaptar-se às descobertas da ciência e aos feitos da técnica, mas, ao contrário, estão décadas à sua frente. Neste caso, como em outros, a ciência apenas realizou e afirmou aquilo que os homens haviam antecipado em sonhos — sonhos que não eram loucos nem ociosos
7. A Terra é a própria quintessência da condição humana e, ao que sabemos, sua natureza pode ser singular no universo, a única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no qual eles podem mover-se e respirar sem esforço nem artifício
8. Embora tais possibilidades pertençam ainda a um futuro muito remoto, os primeiros efeitos colaterais dos grandes triunfos da ciência já se fizeram sentir sob a forma de uma crise dentro das próprias ciências naturais. O problema tem a ver com o fato de que as «verdades» da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio.
9. O mundo — artifício humano — separa a existência do homem de todo ambiente meramente animal; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo artificial, e através da vida o homem permanece ligado a todos os outros organismos vivos. Recentemente, a ciência vem-se esforçando por tornar «artificial» a própria vida, por cortar o último laço que faz do próprio homem um filho da natureza.
10. Sócrates, que havia ido a uma procissão em tal lugar acompanhado de Gláucon, é abordado por um escravo, que lhe transmite o seguinte recado: “– Polemarco pede-vos que espereis.” Sócrates retruca: “– Eu voltei-me e perguntei-lhe onde estava o seu senhor.”
11. Ao encontrarem-se, e logo após Polemarco cumprimentar Sócrates, Adimanto, que era irmão de Gláucon, lhes recorda da corrida vespertina de archotes a cavalo em homenagem à deusa a quem eles foram ver o povo local render homenagens e fazer orações.
12. Foram, então, à casa de Polemarco, onde se encontraram com os irmãos dele e mais Trasímaco de Calcedônia, Carmantidas de Paianieu e Clitofonte. Daí em diante têm início os diálogos por meio dos quais vários problemas emergirão e serão tratados mediante interlocução .
13. O colóquio tem início com Céfalo, pai de Polemarco, e Sócrates, e segue com a participação de Gláucon, Polemarco, Trasímaco, Clitofonte e Adimanto. A reflexão de Platão parte do elogio de Sócrates à Céfalo pela experiência (acumulada) típica dos mais velhos. Diz o personagem Sócrates, ao responder ao pedido de Céfalo para não ser tão intervalar em suas visitas:
14. Com certeza, ó Céfalo (...) Efetivamente, parece-me que devemos informar-nos junto deles [pessoas de idade], como de pessoas que foram à nossa frente num caminho que talvez tenhamos de percorrer, sobre as suas características [– diz ele –, antes de completar:] se é áspero e difícil, ou fácil e transitável .
15. Já na pergunta de Sócrates à Céfalo, em que ele indaga o seu interlocutor pedindo-lhe sua opinião acerca da velhice, é perceptível e flagrante a predominância idealista de Platão. Ao relatar seus encontros com pessoas de sua mesma faixa etária.
15.1. Ao relatar seus encontros com pessoas de sua mesma faixa etária, Céfalo narra que muitos de sua idade sempre reclamam da perda dos prazeres da juventude, ou recordam do gozo do amor, da bebida, da comida e de outros da mesma espécie, e, diz o pai de Polemarco, “agastam-se, como quem ficou privado de grandes bens, e vivesse bem então, ao passo que agora não é viver”.
16. Já nos cumprimentos, Céfalo, o pai de Polemarco, ao protestar contra a ausência de Sócrates e justificar a sua não ida à cidade por conta da sua velhice (o visitante regressara para lá, quando instado a ficar pelo escravo a pedido de Polemarco, “seu senhor”), já havia dito ao seu interlocutor que o prazer e o desejo pela conversa vão aumentando em relação inversa ao murchar dos prazeres físicos.
17. Ao dar sequência à sua resposta, Céfalo diz que, tal como Sófocles (o poeta) e outros de idade semelhante, não se sentia da maneira como aqueles seus contemporâneos – isto é, “como se estivesse privado de grandes bens”.
17.1. Interessante ainda é registrar, nessa mesma direção, a resposta que Céfalo diz ter testemunhado de Sófocles a alguém que o havia interpelado sobre se o poeta ainda era capaz de se unir a uma mulher. Deu ele a seguinte declaração segundo o cidadão que testemunhara a conversa: “
18. A subordinação ao prazer físico é comparável à condição de servidão, a servilismo, à restrição de vontade, numa palavra, como a submissão dos súditos a um rei, sendo o súdito o homem e o rei os seus prazeres, a quem ele serve com total submissão.
19. Dizendo de outro modo, o homem torna-se escravo de si mesmo, mas aqui pelo domínio que exerce sobre ele (o homem) o prazer físico (o soberano), explicação que fica mais completa se expressa como a dominação da racionalidade por esses sentimentos ou paixões.
20. TRABALHO É a atividade correspondente ao artifícialismo da existência humana, existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo «artificial» de coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural.
21. A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente, as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os seus autores humanos.
22. AÇÃO É a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo
23. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de repetições in-terminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
23.1. Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente a condição — não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam — de toda vida política. Assim, o idioma dos romanos — talvez o povo mais político que conhecemos — empregava como sinônimas as expressões «viver» e «estar entre os homens.
24. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de repetições in-terminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
25. As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade.
26. A Expressão Vita Activa Expressão vita activa é perpassada e sobrecarregada de tradição. É tão velha quanto a nossa tradição de pensamento político, mas não mais velha que ela. E essa tradição, longe de abranger e conceitualizar todas as experiências políticas da humanidade ocidental, é produto de uma constelação histórica específica: o julgamento de Sócrates e o conflito entre o filósofo e a polis.
26.1. Depois de haver eliminado muitas das experiências de um passado anterior que eram irrelevantes para suas finalidades políticas, prosseguiu até o fim, na obra de Karl Marx, de modo altamente seletivo.
27. Nem o labor nem o trabalho eram tidos como suficientemente dignos para constituir um bios, um modo de vida autônomo e autenticamente humano; uma vez que serviam e produziam o que era necessário e útil, não podiam ser livres e independentes das necessidades e privações humanas
27.1. Não que os gregos ou Aristóteles ignorassem o fato de que a vida humana sempre exige alguma forma de organização política, e que o governo dos súditos pode constituir um modo de vida à parte; mas o modo de vida do déspota, pelo fato de ser «meramente» uma necessidade, não podia ser considerado livre e nada tinha a ver com o bios politikos.
28. A principal diferença entre o emprego aristotélico e o posterior emprego medieval da expressão é que o bios politikos denotava explicitamente somente a esfera dos assuntos humanos, com ênfase na ação, praxis, necessária para estabelecê-la e mantê-la.
29. A própria expressão que, na filosofia medieval, é a tradução consagrada dó bios politikos de Aristóteles, já ocorre em Agostinho onde, como vita negotiosa ou actuosa, reflete ainda o seu significado original: uma vida dedicada aos assuntos públicos e políticos.
30. E essa estranha declaração, longe de ter sido o lapso acidental de algum repórter norte-americano, refletia, sem o saber, as extraordinárias palavras gravadas há mais de vinte anos no obelisco fúnebre de um dos grandes cientistas da Rússia: «A humanidade não permanecerá para sempre presa à terra».
31. A reação imediata, expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro «passo para libertar o homem de sua prisão na terra»
32. O curioso, porém, é que essa alegria não foi triunfal; o que encheu o coração dos homens que, agora, ao erguer os olhos para os céus, podiam contemplar uma de suas obras, não foi orgulho nem assombro ante a enormidade da força e da proficiência humanas.
33. LABOR É a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor é a própria vida.