1. Século XX: - o corpo foi redescoberto pelo higienismo redentor e pelos combates contra a suposta degenerescência das raças; - proliferação das colônias de lazer, pela expansão do cinema, do escotismo e da emergência das férias pagas; - seduções da publicidade e da televisão e, mais recentemente, pelos movimentos de liberação sexual, pelos novos ritmos musicais, as diferentes tendências da moda, a massificação da pornografia e, enfim, o advento da biotecnologia.
2. À primeira vista o corpo é o que há de mais concreto e natural ao homem.
3. Cada cultura tem seu corpo assim como ela possui a sua língua (De Certeau, 1982, p. 180).
4. Da ornamentação e das tatuagens utilizadas no Neolítico à cosmética e às cirurgias estéticas de nossos dias, as metamorfoses corporais provocadas pelo ser humano serviram aos mais diferentes fins:
5. Modificações do corpo
6. A VOGA DO CORPO: Há séculos a medicina, por exemplo, vem se dedicando ao estudo das doenças e desvendando os mistérios do organismo humano
7. Na universidade, longe de se limitar ao campo da medicina e da biologia, o corpo conquistou o interesse das pesquisas de psicólogos, sociólogos, historiadores e outros profissionais das ciências humanas.
8. Todavia, depois dos movimentos de liberação da década de 60, houve uma preocupação cada vez mais assídua e insistente para com a saúde e o bem-estar corporal.
9. Para Jean Baudrillard ( 1972), por exemplo, vivia-se numa época de intensa "positividade do corpo"; Para Jean-Marie Brohm ( 1975) este tema já era uma " moda hegemônica "; Na história, Prost inseria o corpo num dos aspectos mais relevantes dos estudos sobre a vida privada (1987, p. 102).
10. SEMPRE REDESCOBERTO, NUNCA COMPLETAMENTE REVELADO
11. A proliferação acelerada de produtos, tecnologias, terapias e saberes visando ao fortalecimento e ao embelezamento do corpo coexistia com tentativas de transformá-lo em mercadoria, em objeto disponível à manipulação industrial e ao comércio global.
12. Georges Vigarello é um dos pesquisadores dedicados à compreensão de uma parte desta tendência histórica: confirmando aquilo que François Dagognet já havia anunciado acerca do conhecimento do corpo, Vigarello lembra, em seus diferentes estudos, o quanto a tarefa de investigar o corpo é infinita, um constante caminhar no escuro, destinado a enfrentar inúmeros paradoxos
13. As dimensões sociais do corpo foram diversamente analisadas pela etnologia e pela antropologia e nomes como os de Maurice Leenhardt, B. Malinowski, Roger Bastide, Margaret Mead, Gregory Bateson, C. Lévi-Strauss figuram entre aqueles pesquisadores preocupados em compreender os sentidos culturais dos gestos e da oralidade
14. DA LIBERAÇÃO MORAL AO CULTO DA PERFORMANCE
15. Neles, o culto ao corpo começou a soar muito menos como moda ou um signo de modernidade, e muito mais como uma necessidade básica, ou como a única opção de garantia de um mínimo de qualidade de vida. Uma questão ganha importância: como andar a pé, correr, andar de bicicleta, nadar, em suma, explorar as capacidades do corpo em favor de sua saúde e prazer, morando em cidades cada vez menos solidárias ao pedestre e mais adaptadas a automóveis? Por vezes, não restava alternativa senão os clubes e outros locais fechados, privados, nos quais a natureza tende a ser cada vez mais reconstruída artificialmente: no lugar de lagos e rios, piscinas e cascatas artificiais, no lugar de florestas, áreas verdes.
16. DO CORPO PERFOMÁTICO AO CORPO INCERTO, ESTRESSADO E TURBINADO
17. Maio de 68 havia valorizado a ruptura em relação às regras de condutas misóginas ou devotas à pureza sexual e à uma moral do sacrifício. A partir dos anos 80, as imagens publicitárias da juventude anunciavam uma tendência distinta, com finalidades coerentes com os interesses econômicos globalizados
18. Para alguns, não se tratava apenas de obter um corpo liberado sexualmente, mas, principalmente, de fabricar um corpo bem adaptado aos progressos e sonhos tecnocientíficos contemporâneos. E, caso o corpo não acompanhasse tal ambição, ele correria o risco de se tomar obsoleto.
19. Mais do que liberação moral e sexual, seria necessário liberar o corpo de seu patrimônio genético, incluindo as rupturas de gênero e de espécie;
20. Naqueles anos, enquanto Michel Foucault pesquisava a produção do corpo por meio das disciplinas e dos cuidados de si; Jean-Marie Brohm, por exemplo, sublinhava as relações entre esporte e interesses políticos e assinalava o quanto a cultura do corpo se tornava rapidamente uma caricatura submetida aos interesses do mercado; Jean Baudrillard já havia escrito que "toda a história atual do corpo é aquela de sua demarcação", considerando a rede de marcas e de signos que o esquadrinham, alertando para a transformação da liberação do corpo numa soft pornografia (Brohm, 1986, p. 7 ; Baudrillard, 1970, p. 204). Como Marcuse, Baudrillard sublinhava as formas de alienação próprias aos momentos de lazer e de cuidados com o corpo, enquanto Gilles Lipovetsky investigava as práticas e representações do corpo, num diálogo com autores americanos, tais como Christopher Lasch e Richard Sennett, demonstrando que nosso interesse por este assunto nunca é livre ou espontâneo, pois responde a imperativos sociais e a tendências culturais, tais como aquela do fim de uma sociedade calcada no dever e nas normas de cunho moral.
21. O IMPERATIVO DA COMUNICAÇÃO
22. É preciso se comunicar e possuir um corpo, uma casa, um carro, ideias, parceiros, objetos pessoais e espaços que façam o mesmo: comuniquem! Mesmo que seja para comunicar o incomunicável ou aquilo que já é massivamente comunicado.
23. Vários cultos ao corpo começaram a se sustentar menos na culpa e na disciplina e mais no espírito de iniciativa e na necessidade de se comunicar. "É preciso ter iniciativa", grande conquista e grande obrigação atual.