1. Este texto procura sintetizar alguns modos de pensar a educação do deficiente no Brasil, desde o século XVI até o começo do século XXI. Estas concepções podem ser divididas em três grupos.
1.1. As concepções focadas apenas na deficiência e no que é considerado anormal, como a Médico-Pedagógica e a Psicopedagógica.
1.1.1. A concepção Médico-pedagógica era a mais centrada nas causas físicas, neurológicas e mentais da deficiência: procurava também respostas em teorias de aprendizagem sensorialistas (principalmente francesas) veiculadas na época.
1.1.2. A concepção Psicopedagógica surge quando teorias de aprendizagem psicológicas passam a influenciar firmemente a educação geral e a direcionada aos deficientes; junto ao movimento escolanovista, que destacou a importância da escola e o foco nos métodos e nas técnicas de ensino.
1.2. As concepções que destacam: ou o contexto, em que a educação pretende apenas formar mão de obra para o mercado de trabalho existente (baseada na Teoria do Capital Humano); ou a educação, que passa a ser a redentora da realidade e a única responsável pela transformação contextual (Integração e Inclusão).
1.2.1. A Teoria do Capital Humano é fruto da reorganização ideológica, feita pela Ditadura Militar de 1964. É a educação entendida como investimento, como necessidade de formar recursos humanos para o desenvolvimento brasileiro, de acordo com as oportunidades de mercado de trabalho: nisto, educar o deficiente seria, em termos capacitistas, torná-lo uma pessoa útil, que contribui para a sociedade.
1.2.2. A Integração progressiva na vida com os considerados "normais" (concepção também conhecida como mainstreaming), de modo que o deficiente seja aceito na escola e na sociedade, surgiu na mesma década da concepção anterior e exigia entrosamento da responsabilidade administrativa entre o sistema regular de ensino e o de educação especial. Esta concepção também responsabiliza o meio com a tarefa de se modificar, mas a ênfase é na "normalização" do deficiente. Procurava-se, por exemplo, colocar o deficiente na rede regular, com acompanhamento e criação de condições de atendimento.
1.2.3. A Inclusão, por sua vez, aponta um avanço em relação à integração, pois implica uma reestruturação do sistema comum de ensino. Embora também esteja centrada no pedagógico e no seu poder de transformação da realidade (como o mainstreaming), a Inclusão muda o eixo do enfoque, responsabilizando agora a agência educativa, métodos e técnicas de ensino.
1.3. E, por fim, as concepções que consideram a complexidade do indivíduo em um dado momento histórico, mas também sua autonomia e capacidade de atuar na transformação deste contexto.
1.3.1. Neste último grupo, encontramos a Educação como Mediação, que surge no fim da década de 80 com base nos teóricos marxistas e no materialismo histórico-dialético. Esta concepção procura mostrar a educação como parte da organização social, na sua base infra-estrutural e superestrutural. No âmbito da Educação Especial, há a defesa do direito à socialização, à distribuição, ao uso destes avanços por todos. A mudança reivindicada não é só do sistema de ensino, mas da organização social injusta. Há também a busca de teorias de aprendizagem que consideram a importância da intersubjetividade e da aprendizagem conjunta.